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Possíveis cenários da pandemia no Brasil sob diferentes durações de proteção vacinal

Fonte: Meio&Mensagem
Fonte: Meio&Mensagem
Abertura precipitada pode gerar variantes que driblam imunidade

Cidades anunciam aberturas totais, o público retorna a estádios e concertos, grandes festejos são anunciados. Uma aparente onda de otimismo percorre o país graças à queda do número diário de mortes e ao avanço da vacinação. As boas novas, no entanto, não se sustentam sem políticas públicas e monitoramento adequado. Dependendo da duração da imunidade obtida com as vacinas, um novo pico de infecções pode ocorrer já em março do próximo ano, revela pesquisa do grupo Ação Covid-19.

Um eventual novo pico de infecções não seria tão alto quanto o último (abril deste ano), quando se chegou a mais de 4 mil mortes diárias por Covid-19, mas ainda poderia provocar a perda de muitas vidas, passando de 0,25% da população em algumas cidades. Segundo os pesquisadores, chegar à cobertura vacinal completa não significa eliminar a Covid-19, mas permite que políticas públicas sejam implementadas para controlar melhor os efeitos de uma eventual perda de imunidade na população.

Um novo quadro de alta mortalidade e caos hospitalar pode ser evitado se o poder público estiver atento, monitorando de perto o início dos surtos e pronto para decretar novas medidas de proteção não farmacêuticas antes que o número de infecções se descontrole. "Não é hora de decretar o fim da pandemia. É hora de retomar as atividades com o máximo de cuidado possível, monitorando a curva epidêmica", declara a bióloga Beatriz Carniel, uma das autoras do estudo.

Os pesquisadores também advertem que a abertura das cidades neste momento é muito precipitada, podendo favorecer o avanço da variante Delta e o surgimento de novas cepas. "Um perigo é que o vírus, circulando muito e com parte da população imunizada, acabe gerando uma mutação que dribla a resposta induzida pela vacina", adverte a epidemiologista Gerusa Figueiredo, da Faculdade de Medicina da USP e membro do coletivo.

"No mundo todo tivemos atitudes irresponsáveis: governos decretando a volta da normalidade, jornalistas tirando máscaras ao vivo, contagem regressiva para festas. Nesses mesmos lugares, os casos dispararam e as mortes voltaram a crescer", lamenta o economista José Paulo Guedes Pinto, também co-autor do estudo. Observando a alta de casos e mortes em países com vacinação adiantada, como EUA e Israel, os pesquisadores decidiram investigar o que poderá ocorrer no Brasil, onde o poder público está promovendo o retorno à plena normalidade das atividades, com a vacinação ainda em etapa anterior.

Os pesquisadores simularam dois conjuntos de cenários para o biênio 2021-2022. No primeiro, a imunidade das pessoas vacinadas dura 12 meses e, no segundo, 18 meses. Cada cenário é simulado para diferentes tipos de ambientes: cidades com alta ou média densidade demográfica; cidades com maior ou menor índice de proteção à Covid-19 (IPC; ver explicação abaixo). Segundo os resultados da pesquisa, o pior cenário simulado, o de um território correspondente à cidade de Olinda/PE (alta densidade demográfica, IPC baixo e apenas um ano de imunidade vacinal) resultaria em 71,51% da sua população infectada e 0,29% da sua população morta em 2 anos de pandemia após o início da vacinação, números duas vezes mais altos do que os do melhor cenário (IPC alto, densidade demográfica menor e imunidade vacinal de 18 meses) que seriam territórios correspondentes às cidades de São Paulo/SP ou Belo Horizonte/MG.

“Nossas simulações mostraram que o tempo entre os surtos vai depender da duração da imunidade vacinal e sua capacidade de cobrir as novas variantes.” afirma a física Patrícia Magalhães, coordenadora do coletivo Ação Covid-19. Ela ainda reitera que “entre todas as simulações a duração de imunidade em 1 ano e 6 meses reduziria o número de casos pois aumentaria o intervalo para o próximo surto - de Abril/Maio para Setembro de 2022. Mas é evidente que o impacto é maior nos territórios com baixos índices de proteção a Covid”.

O grupo Ação Covid-19 adverte que ainda não há dados confiáveis sobre a duração da imunidade conferida pelas vacinas. Os números usados na pesquisa se baseiam em estimativas da comunidade científica internacional.